Apertem os cintos, o emprego sumiu: por que isso pode ser ótimo para você

É preciso encarar os fatos: o mundo mudou tanto nos últimos 10 anos que o conceito de trabalho jamais será como antes. O clássico “emprego CLT”, aquele no qual você trabalha para uma só empresa por vários anos seguidos, oito horas por dia, com carteira assinada, 13º salário e férias está com os dias contados, principalmente no Brasil.

Uma persistente crise econômica que já dura quase quatro anos gerou mais de 13 milhões de desempregados no nosso país. A reforma trabalhista também está, aos poucos, transformando a maioria dos brasileiros em profissionais sem vínculo empregatício, por conta das novas modalidades de contrato previstas na legislação. O número de profissionais sem carteira assinada – 34,3 milhões –, já supera a quantidade de profissionais formais em quase 1 milhão de pessoas, segundo dados do IBGE que foram divulgados na mais recente edição da revista VOCÊ S/A, que abordou exatamente este tema.

Além desses fatores “locais” que os brasileiros têm de lidar, ainda é preciso considerar o elemento mais importante de toda essa transformação do mercado de trabalho, que está acontecendo em todo o mundo, independentemente de uma crise neste ou naquele país: o impacto das novas tecnologias. Na Era Digital em que agora vivemos, basta ter um computador (ou um bom smartphone) e uma conexão wi-fi que funcione bem para trabalhar de qualquer lugar, seja na sua casa, em um café em Buenos Aires, em um hotel em Paris ou em um coworking em Curitiba – uma nova forma de trabalhar chamada nomadismo digital.

Sim, aperte os cintos, o emprego da forma como você conhecia sumiu! No entanto, não há motivo para pânico, o avião da sua carreira não vai cair. Pelo contrário, isso pode ser ótimo para sua vida profissional e pessoal.

Eu falo por experiência própria. Há quase dois anos, fui demitido de uma empresa em que atuei por cinco anos e me vi desempregado aos 40 anos. Alguns meses depois da demissão, ao abrir a minha empresa, a KEEP CALM – Marketing Estratégico, assumi as rédeas da minha carreira de verdade e levei pouco tempo para perceber que empreender foi uma ótima decisão: não ter um crachá pendurado no pescoço pode trazer muito mais autonomia profissional, possibilidades de carreira, e o mais importante, qualidade de vida.

Ao trabalhar como um prestador de serviços independente, seja da forma como for – autônomo, profissional liberal, MEI, freelancer –, você tem autonomia para decidir quantos clientes é capaz de atender, que tipo de trabalho deve aceitar e como vai organizar o seu tempo, o que significa definir quantas horas quer trabalhar por dia, algo difícil em um contrato de trabalho típico de oito horas por dia, cinco dias por semana, aquele que a grande maioria das empresas brasileiras oferece.

Ao empreender ou passar a prestar serviços para uma ou várias empresas de forma independente, você também tem a oportunidade de desenvolver novas habilidades e competências – como lidar com finanças, fazer relacionamento, aplicar técnicas de marketing e vendas –, descobrir novos talentos pessoais ou profissionais ou até mesmo começar uma nova carreira. Você precisa concordar comigo que essas possibilidades são muito mais remotas quando você está “preso” a um emprego “tradicional”.

Uma amiga minha que é jornalista, por exemplo, deixou um emprego estável em uma grande empresa há alguns anos e hoje é uma bem-sucedida empresária do segmento de hospedagem para cães e gatos. Outro amigo foi demitido de uma multinacional e está muito feliz e realizado tocando um restaurante vegetariano, no qual trabalha de forma intensa durante apenas quatro horas por dia. No meu caso, abrir uma empresa de educação corporativa e consultoria na área de marketing e vendas fez com que eu me reinventasse como profissional após os 40 anos e descobrisse um talento que até então eu não sabia que tinha: dar aulas e palestras. Desde o início de 2017, já realizei mais de 35 cursos e palestras presenciais em 30 cidades do Brasil, compartilhando meus conhecimentos e experiências com mais de 3 mil profissionais. Nada mal para quem estava desempregado e sem perspectivas há quase dois anos.

Contudo, o ponto positivo mais interessante de ter um trabalho, mas não ter um emprego é, sem dúvida, a qualidade de vida que se conquista. Não há salário que pague o valor de você ter a chance de acompanhar a aula de judô do seu filho às 10h da manhã de uma sexta-feira ou de tomar um café com sua esposa tranquilamente no meio de uma tarde de quarta-feira sem ter que fazer uma ginástica pessoal e profissional.

Outra vantagem de empreender ou trabalhar por conta própria é poder definir dia, horário e local no qual você vai realizar suas tarefas. Eu, por exemplo, costumo viajar bastante e frequentemente atendo à distância os meus clientes de consultoria e mentoria, afinal, carrego o escritório comigo (o meu laptop).

Ok, você deve estar aí se perguntando: mas só há benefícios em se tornar empreendedor ou autônomo? Não! Longe disso. Como em qualquer tipo de trabalho, você também precisa enfrentar alguns desafios. Para começar, você não tem salário fixo e precisa bancar suas despesas com plano de saúde, alimentação e transporte, custos que normalmente não teria em um emprego CLT. Isso significa que você deve necessariamente gerar receita, caso contrário, não conseguirá arcar com os seus custos mínimos.

Além disso, como empreendedor ou autônomo, você precisa desenvolver como nunca habilidades e competências essenciais para fazer o seu negócio prosperar, entre elas fazer networking de forma contínua, prospectar clientes diariamente, divulgar o seu trabalho com frequência e criatividade e ainda ter visão estratégica para planejar os seus próximos passos.

Sim, ninguém disse que seria fácil, mas todos os meses você recebe várias cartas motivacionais pelo correio: os boletos de luz, água, telefone, escola do filho… Há melhores motivações do que essas? Eu não conheço.

Brincadeiras à parte, o fato é que o emprego da forma como conhecíamos se tornará cada vez mais raro. Seja qual for a sua idade, nível de conhecimento ou experiência profissional, comece a repensar seus conceitos sobre trabalho. Mesmo que esteja bem empregado hoje, com carteira assinada e direitos assegurados, amanhã você pode ser demitido sem qualquer razão aparente. Acontece com muitos profissionais, todos os dias.

Planejar um Plano B para a sua carreira ou se preparar bem para a possibilidade de ter um trabalho sem carteira assinada em um futuro próximo é fundamental para evitar dificuldades e se manter um profissional competitivo no mercado. E, de quebra, você ainda pode descobrir que trabalhar sem vínculo empregatício pode ser a melhor decisão profissional que você já tomou na sua vida.

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