Como Mulher Maravilha comprova a importância da concorrência

Você já assistiu ao filme Mulher Maravilha, em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 1º de junho? Se ainda não viu, vá ver, principalmente se você gosta de filmes de super-heróis. Além de ser entretenimento da melhor qualidade, Mulher Maravilha é (mais) uma competente adaptação de um personagem emblemático dos quadrinhos para o cinema. Para um profissional da área de marketing como eu, o filme ainda trouxe uma vantagem a mais: saí do cinema com a convicção de como a concorrência é importante – e isso vale para o seu negócio ou para a sua carreira. A concorrência te tira da zona de conforto, te leva a produzir mais, te estimula a ir além, faz com que você apresente a melhor versão de você mesmo. Como eu cheguei a essa conclusão após comer um balde de pipocas dentro de uma sala escura por duas horas? Já explico.

Vamos lá: Mulher Maravilha é o mais recente lançamento cinematográfico da parceria firmada entre o estúdio de cinema Warner Bros e a editora de quadrinhos DC Comics, criadora de super-heróis clássicos como Batman, Superman e a própria Mulher Maravilha, entre outros que formam a chamada Liga da Justiça. Até o momento, também é a obra cinematográfica mais bem resolvida do universo de personagens da DC Comics desde que a Warner recomeçou do zero a produção de filmes sobre os personagens da Liga da Justiça, em 2013, com O Homem de Aço – nova adaptação do Superman para o cinema. A qualidade de Mulher Maravilha está se refletindo na bilheteria: no seu final de semana de estreia, arrecadou mais de US$ 220 milhões no mundo todo e já está pago (custou US$ 150 milhões). Mas onde entra a concorrência nessa história? Se Warner/DC Comics acertou a mão com Mulher Maravilha, isso está diretamente relacionado com o fato de que, do outro lado desse ringue, está outra parceria de sucesso que tem produzido recordes de bilheteria nos últimos anos: a dupla Disney – empresa que dispensa apresentações, certo? – e Marvel, rival histórica da DC Comics e criadora de outro time de super-heróis emblemáticos, os Vingadores, que reúne personagens como Capitão América, Homem de Ferro, Hulk e Thor, entre outros.

Para entender como chegamos nesse estágio de profícua concorrência entre Warner/DC Comics e Disney/Marvel, é necessário voltar no tempo algumas décadas. Em 1989, a Warner/DC Comics fez muito dinheiro com o lançamento de Batman. Três anos mais tarde, continuou reinando sozinha com Batman – O Retorno (1992). Nessa época, o cinema ainda não contava com a notável qualidade dos efeitos especiais dos dias de hoje e por causa disso nem todos os personagens podiam ser adaptados para a telona sem as estórias parecerem toscas – e a Marvel sofreu especialmente por causa dessa dificuldade devido às características próprias de seus super-heróis. Para piorar, na segunda metade dos anos 1990 a mesma Marvel estava à beira da falência por conta da crise que a indústria de quadrinhos enfrentava devido ao avanço da internet e do mercado de videogames. Enquanto isso, a dupla Warner/DC Comics começou a tropeçar nas próprias pernas ao produzir novas e terríveis sequências de Batman. Hollywood acabou deixando de lado por alguns anos a produção de filmes baseados em histórias em quadrinhos.

No início dos anos 2000, a melhoria da qualidade dos efeitos especiais permitiu que os estúdios Fox e Sony produzissem respectivamente X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), filmes que se tornaram sucessos de bilheteria. Entusiasmada com o sucesso da concorrência, a Warner/DC Comics contratou o diretor Chistopher Nolan, do cultuado thriller Amnésia (2000), para trazer Batman de volta ao cinema. O resultado foi a já clássica trilogia O Cavaleiro das Trevas: os três filmes – Batman Begins (2005), Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) – arrecadaram, juntos, mais de US$ 2 bilhões. Desta vez, foi o êxito da Warner/DC Comics que motivou a Marvel, até então apenas uma editora de gibis, a lançar seu primeiro filme, Homem de Ferro (2008), que se tornou um enorme êxito de bilheteria ao arrecadar quase R$ 600 milhões. Antenada como sempre para prever cenários de sucesso, a Disney comprou a Marvel em 2009 por US$ 4 bilhões. A partir daí, a Disney investiu pesado na adaptação de todos os principais super-heróis do universo Marvel. Nos anos seguintes, sucederam-se sucessos de bilheteria da Disney/Marvel, como Homem de Ferro 2 (2010), Capitão América (2011), Thor (2011), Os Vingadores (2012), Guardiões da Galáxia (2014) e Capitão América – Guerra Civil (2016), entre outros, que juntos arrecadaram quase US$ 10 bilhões até 2017.

Apesar de ter se saído muito bem com a trilogia O Cavaleiro das Trevas, a Warner/DC Comics fracassou ao tentar uma nova versão de Superman (2006) e ao lançar o primeiro filme do Lanterna Verde (2011). Diante da forte concorrência da Disney/Marvel na última década, a Warner/DC Comics foi obrigada a se reinventar de novo. Após produzir o bem-sucedido O Homem de Aço (2013), que arrecadou o triplo do que custou, a Warner/DC Comics decidiu seguir os passos da concorrente e lançar o seu próprio universo de filmes baseados na Liga da Justiça. Em 2016, lançou Batman Vs Superman que, apesar de não ter sido um grande sucesso de público e crítica, pavimentou o caminho para o ótimo Mulher Maravilha e para o novo Liga da Justiça, que estreia em novembro. O trailer de Liga da Justiça sugere que a Warner/DC Comics corrigiu alguns problemas de Batman Vs Superman, entre eles a falta de uma pitada de humor que caracteriza os filmes da concorrente Disney/Marvel. Ou seja, há boas chances de Liga da Justiça ser um enorme sucesso de bilheteria exatamente como está sendo Mulher Maravilha – o qual, diga-se de passagem, já conta com os tais ingredientes de humor que ajudam a explicar o sucesso das produções da Disney/Marvel. E se você acha que a Disney/Marvel vai parar por aí, está enganado: em novembro chega aos cinemas Thor: Ragnarok e em 2018 vem aí Vingadores: Guerra Infinita – Parte 1, entre outros lançamentos do estúdio.

O fato é que a produtiva e saudável competição entre Warner/DC Comics e Disney/Marvel é um bom exemplo de como a concorrência faz bem para o mercado, em qualquer segmento. Sem concorrência, seu negócio entra em uma zona de conforto perigosa, que não estimula a melhoria da qualidade, o lançamento de novos produtos e serviços ou mesmo a busca por mais satisfação do seu cliente. Você entra no modo “já ganhou”, o que é muito ruim no longo prazo. A concorrência incentiva a inovação, é ela que motiva o surgimento de negócios inovadores como Uber, Airbnb ou Netflix. O mesmo conceito vale para sua carreira: se você percebe que outros profissionais estão avançando e você está ficando para trás, perdendo oportunidades de carreira, você se sente desafiado a crescer, a investir na sua formação, na sua diferenciação.

Fazendo um paralelo com o contexto de mercado do Brasil, eu diria que, se tivéssemos mais concorrência em vários segmentos, certamente teríamos produtos e serviços melhores, mais satisfação do cliente e até mesmo menos corrupção. É bom lembrar que boa parte das denúncias de irregularidades que estão vindo à tona nos últimos meses no nosso país estão relacionados com o fato de que o governo “esqueceu” o fator concorrência e resolveu conceder privilégios para algumas empresas em troca de favores a alguns agentes públicos corruptos. O poder público também atrapalha o surgimento de novos players em vários segmentos de mercado no Brasil por conta da gigantesca quantidade de regras e taxas a serem observadas, o que inibe qualquer empreendedor – mas isso já é assunto para um outro artigo.

Portanto, se algum dia você se sentir bem com o fato de a sua marca/empresa não ter concorrência, pense duas vezes. É exatamente por causa disso que o seu negócio pode estar com os dias contados.